
Feng
Shui (ou Kan Yu) é
uma técnica de harmonização energética
que visa não somente a organização
espacial, mas principalmente a integração,
através do equilíbrio entre as forças
da Natureza, do Cosmos, e do Homem. Originária
na China, significa literalmente Vento-Água;
é comumente pronunciado Fong Suei, e diferentemente
do que supõe os neófitos no assunto, iniciou-se
há mais de 4000 anos, com o estudo, por parte
do reino vigente, das melhores posições
para os túmulos sagrados dos imperadores mortos
(acreditava-se que para haver uma boa continuidade da
linhagem hereditária, seria necessário
enterrar os ancestrais em determinadas disposições
auspiciosas e locais benéficos). Essa antiqüíssima
técnica, denominada de Yin Zhai,
desenvolveu-se paralelamente à chamada análise
para os vivos, ou Yang Zhai –
em outras palavras, um Feng Shui para os descendentes
e outra para as residências.
Antes de continuarmos, é importante esclarecermos
que Feng Shui não se limita apenas em colocar
“penduricalhos”, como sinos de vento e flautas
em determinados pontos da casa. Para se compreender
o verdadeiro Universo do Kan Yu, é necessário
conhecer alguns conceitos básicos de como flui
a energia sutil (Qi), compreensão da essência
do Yin e Yang, dos trigramas do Yi Jing (I Ching), dos
Animais Celestiais, dos 5 elementos e as suas manifestações
na natureza, além dos diversos tipos de Astrologia
Chinesa e das tradições e ritos orientais.
Sem dúvida, um grande, mas maravilhoso, caminho
a ser percorrido.
Uma outra dúvida comum no iniciante é
a grande quantidade de linhas de atuação
que compõem o Feng Shui. Palavras como Luo Pan,
técnica do Chapéu Preto, entre outras,
confundem e muito os neurônios dos estudantes.
O que se torna fundamental, portanto, é compreendermos
que não existe somente um tipo de Sistema ou
Escola de Feng Shui, mas sim inúmeras (além
disso, as técnicas ancestrais não vieram
somente de um local – na China, esse estudo perpetuou-se
como uma tradição familiar ou discipular,
sendo que cada uma possuía um enfoque diferente).
AS
TRADIÇÕES DO FENG SHUI - ABORDAGEM CLÁSSICA
Os
estudos do Feng Shui Clássico podem ser divididos
em duas Tradições: San-He (3 Harmonias)
e San-Yuan (3 Ciclos).
• Tradição San-Yuan - Fundada
na Dinastia Tang (618–906 d.C.) e desenvolvida
na região
sul da China.
Utiliza, como âncora, o estudo das formas da Natureza,
aliado ao uso de
um tipo
de bússola magnética que identifica o
fluxo das energias celestes e terrestres.
Tais enfoques baseavam-se
num profundo estudo astrológico das construções
e dos
moradores,
e das tendências energéticas envolvendo
os fatores de Tempo e Espaço.
• Tradição
San-He - Com
pelo menos um milênio de idade, foi desenvolvida
em meio às
ricas composições
paisagísticas do Norte. Muitos denominam-na,
erroneamente, como
Escola da
Forma, talvez pelo enfoque geo-morfológico no
qual tal tradição se baseia.
Entretanto,
a Luo Pan (bússola chinesa) também é
utilizada; no caso, com o intuito
de apurar
as formas e direções das montanhas, vales
e rios.
As
Escolas originárias da San-Yuan
Xuan
(Vazio) está relacionado com a evolução
contínua e infinita da energia (explicitados
no Luo Shu), enquanto que Kong (Misterioso) denotam
técnicas que se estruturam num certo padrão
energético. Descobrir como agem esses códigos
permite-nos compreender o sentido e a especialidade
de cada Escola originada na Tradição dos
Três Ciclos.
• Xuan-Kong
Zi Bai (Púrpura-Branca) - Tida
como uma das primeiras originárias dos Três
Ciclos,
baseia-se nos estudos do Quadrado Mágico. Nos
dias de hoje, as técnicas
divulgadas
são muito simplistas, não sendo consideradas
pela maioria dos Mestres
contemporâneos.
• Xuan-Kong
Fei Xing (Estrelas Voadoras) - Utiliza-se
do Quadrado Mágico, mas de uma
maneira
muito mais complexa que a anterior. Estuda as variações
e probabilidades
no fator
Tempo & Espaço, ou seja, como o Qi se estabelece
no interior da edificação
(definida
pela forma da paisagem) e como ele evolui qualitativamente
num dia,
mês,
ano ou período. Atualmente, a ênfase dessa
escola está nos estudos
energéticos
das construções em si.
•
Xuan-Kong Da Gua (64 Hexagramas do Yi Jing) - Muito
utilizada principalmente em
grandes
áreas abertas, tem sua origem nas interpretações
matemáticas dos
Hexagramas
e das linhas que os compõe. Com os estudos desta
última, é possível
obter as
melhores direções e setores para se construir,
bem como os acessos mais
auspiciosos
ao terreno.
•
Xuan Kong Long Men Ba Da Ju (Portão
dos Dragões) - Técnicas
variadas que observam
as influências
energéticas que as ruas, vias e avenidas causam
na edificação (fluxo
de entrada
e saída do Qi na residência). Baseiam-se
nas relações entre o Xian Tian
Ba Gua (Posicionamento
dos Trigramas no Céu Anterior) e Hou Tian Ba
Gua
(Posicionamento
dos Trigramas no Céu Posterior).
AS
ESCOLAS ORIGINÁRIAS DA SAN-HE
•
Xing Shi Pai (Análise
Formal) - Mesmo
sendo também o pilar estrutural dos Três
Ciclos,
nos estudos
geográficos das Três Harmonias criam-se
conceitos baseados no
paisagismo
e na percepção cognitiva do observador.
Camuflada pelos símbolos,
na verdade
representam profundos conhecimentos “geobiológicos”
(auxiliam o
entendido
a escolher precisamente os melhores locais para a edificação,
evitando
assim, as
temíveis Veias do Dragão – veios
aquáticos subterrâneos e linhas
energéticas
terrestres). As análises efetuadas com a própria
Luo Pan (o chamado
“balanço
da bússola”) substituíram as varetas
indicativas da técnica ancestral Di Mai.
•
Ba
Zhai ( 8 Palácios ) - A
Escola Ba Zhai tem a sua primeira citação
nos escritos dos
Song, e
o seu apogeu na Dinastia Ming. Utiliza as análises
dos chamados 4 portais
energéticos
auspiciosos e não auspiciosos de uma residência,
de acordo com a
característica
local e à compatibilidade energética com
os moradores. As inúmeras
publicações
(principalmente a partir dos tempos dos Qin) geraram
diferentes
interpretações
da teoria e dúvidas sobre o método
mais correto de uso, causando,
ainda nos
dias atuais, uma série interminável de divergências
conceituais entre os
praticantes.
•
Shan
Shui Long Fan Gua (Dragão da Montanha e da Água)
- Complexo
estudo
sobre os
aspectos formais e direcionais do Dragão da Montanha
/ meio externo
“fixo”
(montanhas, construções vizinhas, etc)
e Dragão de Água / meio externo
“móvel”
(curso dos rios, ruas, avenidas, bem como a localização
de lagos,
“bocas
d’água”, etc) e as influências
de ambos na construção. Como todas as
dinâmicas
San-He, as técnicas dessa Escola são inúmeras,
porém pouco acessíveis
até
aos estudiosos.
COMENTÁRIOS
SOBRE A TÉCNICA YA-BAI (Geometria Sagrada Chinesa)
Escritos
ancestrais revelaram a existência de um sistema
métrico-energético utilizado pelos conhecedores
de outrora, em complementação aos estudos
do Kan Yu. Tem-se pouquíssima informação
sobre esse tipo de “geometria sagrada”,
não havendo indícios da sua origem especificamente
em uma ou outra Tradição. Nos manuais
contemporâneos costuma-se achar uma régua
(supostamente copiada de um desses manuscritos ancestrais);
entretanto, sabe-se apenas que a colocação
dos portentos benéficos ou maléficos explicitados
e ensinados em tais livros não estão coerentes,
pois segundo alguns Mestres, tais “qualidades
métricas” são mutáveis, de
acordo com a proporção medida e o fator
tempo.
O
FENG SHUI TRADICIONAL NOS DIAS DE HOJE
Atualmente,
o conhecimento ancestral foi reformulado em duas Escolas
Tradicionais:
•
Luan
Tou (Estudo de Forma) - Baseia-se
na observação das formas externas, e na
maneira
com a qual elas influenciam as construções.
Costuma ser menos apurada
do que os
estudos da San-He Xing Shi Pai.
•
Li
Qi (Técnicas de Bússola) - São
todas as antigas tradições que utilizavam
a bússola
como instrumento
de análise, reorganizadas agora para o estudo
da paisagem
contemporânea,
principalmente das cidades. Muitas Luo Pans, atualmente,
reúnem
duas ou
mais técnicas de escolas diferentes (como a San-Yuan,
a San-He e até
a Ba Zhai)
num único equipamento.
ADAPTAÇÕES
E INVENÇÕES A PARTIR DO FENG SHUI CLÁSSICO
E OUTRAS CONCEPÇÕES
•
Hemisfério
Sul - Escola
que se estrutura no fator sazonal para justificar a
adaptação
de todas
as teorias antigas baseadas no Luo Shu, Ho Tu e Ramos
Terrestres
(animais
do zodíaco chinês) ao hemisfério
sul. Em voga nos anos 90, vem perdendo
muita credibilidade
nos últimos anos.
•
Vastu
Shastra - Considerado
o “Feng Shui indiano”, possui uma estrutura
analítica e
simbólica
totalmente diferente das tradições chinesas
ou tibetanas. Vem ganhando
espaço
na atualidade.
•
A
Escola Americana ou do Budismo Tântrico do Chapéu
Preto - Tornou-se
a mais
difundida
em todo o mundo, devido, em primeira instância,
à facilidade de
compreensão
e atuação. Designa os famosos “cantos“
da casa, e incorpora rituais e
atos mágicos
nos processos de consagração do espaço.
Mantém alguns conhecimentos
da Escola
da Forma, mas ignora outros preceitos fundamentais.
É a mais intuitiva das
escolas,
trabalhando principalmente com o Universo Simbólico
do morador como mola
propulsora
para se chegar à consciência do ser.
Miscelâneas baseadas no Chapéu
Preto:
•
Oito
Aspirações - Variação
divulgada há menos de uma década, utiliza
os pontos
cardeais
para direcionar as “qualidades do Ba Gua”.
Alguns iniciantes confundem-na,
a princípio,
com a Escola Ba Zhai (8 Palácios), ou mesmo
como sendo uma autêntica
técnica
de Bússola, o que não é verdade.
•
Space
Clearing (Limpeza Energética de Espaços)
- Compreendem
os mais diversos
tipos de limpezas
energéticas, rituais e consagrações
mágicas, com o intuito trazerem
saúde,
prosperidade e proteção à vida
pessoal e familiar. Possuem influências
variadas,
como o xamanismo, o budismo, o simbolismo chinês,
entre outros.
Utiliza
geralmente a ordem figurada do Ba Gua para organizar
o espaço de atuação.
•
Pirâmide
- Amplia
os horizontes simbólicos da Escola Americana,
colocando valores
psico-emocionais
no arquétipo “dos cantos”. Baseia-se
na psicologia jungiana,
com um forte
apelo na programação neurolinguística.
CONSIDERAÇÕES
DO MING TANG
No Módulo inicial, explicaremos resumidamente
cada uma das técnicas ou escolas modernas; entretanto,
sendo a Instituição Ming Tang baseada
na integridade, coerência e profundidade dos métodos
clássicos, seu maior intuito será exatamente
propagar, esclarecer e fundamentar os conceitos do verdadeiro
Feng Shui, não se apegando, por conseguinte,
em propostas, teorias amadoras ou variações
simbólicas e comerciais, errônea e abusivamente
chamadas de Feng Shui, que reforcem contextos irreais
ou totalmente diferentes das bases sólidas chinesas.
A
importância de um início bem fundamentado
Uma
das carências existentes na maioria dos cursos
abertos era a falta de um embasamento histórico
e filosófico chinês, tanto dos alunos quanto
dos professores; ambos, sedentos por receberem ou passarem
informações práticas, costumavam
não valorizar as mais importantes, como o contexto
cultural em que cada Tradição ou Escola
se formou, entre outras. É exatamente por suprir
essas lacunas que o Ming Tang propiciará um profundo
estudo das técnicas em meio à Evolução
do Pensamento Chinês, possibilitando aos alunos
desenvolverem, por conseguinte, uma postura ativa, discursiva
e investigativa perante toda a Formação.
Nesse Módulo de partida, comprender-se-á
a tênue e fundamental linha que liga a Astrologia,
Medicina Chinesa e o Feng Shui, eliminando, finalmente,
a ilusória afirmação de que tais
dinâmicas são totalmente distintas, e de
que não é necessário sabermos técnicas
astrológicas chinesas para sermos bons consultores
ou professores de Feng Shui. Um início muito
instigante e promissor para os novatos; sem dúvida,
esclarecedor e surpreendente para os estudiosos.
|